Em livro, Drauzio Varella narra viagens ao Rio Negro e causos da população amazônica: 'A história deles é heroica'
Em 'O sentido das águas', médico escreve sobre mais de três décadas de expedições e encontros com indígenas, garimpeiros, militares e ribeirinhos: 'Como é que eu conhecia tanto do mundo e não aquele lugar, que fica no país ao qual devo tudo?'

Quando ainda era voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, Drauzio Varella conheceu o bicheiro Chico Ronda, que mandava na Zona Norte da cidade e insistiu que ele visitasse a escola de samba Império da Casa Verde. Disse que seu cupincha Carlinhos, que tomava conta dos negócios enquanto o chefe estava na cadeia, o receberia “com tapete vermelho”. Drauzio não acreditou quando viu Carlinhos: “era um moleque” (tinha 34 anos), “meio agitadão”, que chegou carregando uma bolsa com todos os zíperes abertos. “Esse cara tem uma arma aí”, pensou o doutor, já se imaginando num filme de gângster (“ia entrar alguém metralhando todo mundo ali”). Mas Carlinhos relaxou na presença das visitas e contou ser responsável por mais de 1.200 empregos, direitos e indiretos.
— Aí eu falei: “Escuta, você é um menino de 34 anos, como é que consegue comandar tanta gente?” Ele disse: “Doutor, eu dou para os meus subordinados aquilo de que o homem mais gosta.” Eu ri e ele falou: “Não é dinheiro nem sexo. Eu deixo eles falarem de si mesmos” — recorda o médico de 81 anos, vencedor do Prêmio Jabuti pelo livro “Estação Carandiru”. — Pô, o cara tinha 34 anos e já tinha percebido uma coisa que eu, que já tinha mais de 60, ainda não sabia!
Causos do norte
O novo livro de Drauzio (o vigésimo) é prova de que ele assimilou muito bem a lição de Carlinhos. “O sentido das águas” compila episódios de mais de uma centena de viagens à Amazônia nas últimas três décadas e narra causos ouvidos de todo tipo de gente: comerciantes, mateiros, militares, ribeirinhos, parteiras, indígenas.
Um garimpeiro disse ao médico que, depois de ganhar algum dinheiro, colocou as notas num pacote, amarrou com barbante, prendeu-o no cinto, ao lado do revólver, e saiu arrastando o embrulho pela rua. E justificou: “Andei a vida inteira atrás desse filho da puta. Agora é ele que anda atrás de mim.” Outro contou que, para conquistar uma prostituta muito mais alta que ele, confeccionou um tapete com notas de R$ 10 (“no tempo em que R$ 10 era dinheiro”) que ia da sala do prostíbulo à beirada da cama.
— O cara às vezes está meio arredio, meio ressabiado, mas começa a falar, eu vou deixando, me interesso, e assim a conversa vai. Claro, depois que eu fiquei conhecido, a abordagem ficou mais fácil — conta o médico que está sempre na telinha do Fantástico, da TV Globo.
“O garimpo ilegal”, escreve Drauzio, “destrói a floresta e espalha malária, infecções sexualmente transmissíveis, verminoses e desnutrição em crianças e adultos”, vitimando sobretudo os indígenas, cujas terras foram invadidas “em proporções inéditas” entre 2018 e 2022, “quando o Brasil foi governado por um presidente negacionista”. No entanto, ele não demoniza os garimpeiros, homens que não veem outra alternativa para se sustentar. “No garimpo a gente às vezes tá rico, às vezes tá na miséria. O problema é que riqueza só dura dois, três dias, e a pobreza fica pela vida inteira”, resumiu um rapaz ao doutor.
— Quem vai para o garimpo é o pobre. O rico compra máquina e aluga para quem está garimpando. Você acha que eles gostam de morar no meio da floresta, sendo picado por mosquito, pegando malária? Não. É porque eles não veem outra chance de ganhar dinheiro e estabelecer, mas é tudo ilusão — diz o médico, contando que, toda vez que escrevia uma frase muito política no livro, preferia mudar o rumo.
O médico Drauzio Varella ao pé de uma sumaúma amazônica — Foto: Acervo pessoal
Impressionistas
Drauzio visitou a Bacia do Rio Negro pela primeira vez em 1992. Na época, tentava convencer estudiosos da biotecnologia a se interessarem pelo Brasil e, para atraí-los, convidou-os a uma excursão pela Amazônia. Lá, encantou-se com as “versões tropicais das paisagens impressionistas”.
— Foi um choque. Fiquei fascinado. Tinha quase 50 anos e me senti até meio idiota: como é que eu conhecia tanto do mundo e não aquele lugar, que fica no Brasil, o país ao qual devo tudo? — diz ele. — Num fim de tarde, no barco, o Robert Gallo (cientista americano, um dos descobridores do vírus da Aids) me falou que aquela diversidade era impressionante e perguntou se tínhamos estudos sistemáticos sobre a flora amazônica. “Só estudos isolados”, respondi. Ele disse: “Se vocês não provarem a utilidade da floresta, ela vai acabar.” Fiquei com essa frase na cabeça.
Foi a partir da conversa com Robert Gallo que nasceu um projeto da Universidade Paulista (Unip), que leva pesquisadores ao Rio Negro para estudar propriedades medicinais das plantas amazônicas e já rendeu 92 artigos, 38 teses e dissertações, participações em cerca de 200 congressos científicos, o documentário “Histórias do Rio Negro”, de Luciano Cury, e o livro “Florestas do Rio Negro”, de Alexandre de Oliveira e Douglas Daly.
“O sentido das águas”, aliás, é o segundo livro de Drauzio inspirado nessas viagens: o primeiro foi o infantil “Nas águas do Rio Negro”, de 2017, ilustrado por Odilon Moraes, no qual um médico são-paulino se perde na mata e interage com personagens folclóricos. A última visita do autor à região foi em dezembro e a próxima deve ser em julho.
Diários de viagem
O Rio Negro tem 2.200 quilômetros de extensão e é mais caudaloso que todos os rios da Europa juntos. Nasce na Colômbia, avança pelo interior do Amazonas e se junta ao Solimões nos arredores de Manaus para desembocar no Amazonas. O Alto Rio Negro é a região com o maior índice pluviométrico do Brasil. Todos esses dados aparecem logo no começo do livro. Drauzio se preparou para escrever “O sentido das águas” lendo relatos dos cientistas que se embrenharam na Amazônia antes dele, como os britânicos Alfred Wallace e Richard Spruce. O livro se insere confortavelmente nessa tradição de diários de viagem de cientistas. Além de contar causos impressionantes, o autor dá informações precisas sobre a região e capricha na prosa. “Na competição pela luminosidade, as árvores se comportam como pessoas numa festa compelidas a falar cada vez mais alto”, escreve ele.
No correr de três décadas, Drauzio viu a região mudar. Cidades como São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel e Barcelos cresceram, ganharam estradas asfaltadas e hotéis, mas sofrem com a falta de saneamento básico, o assédio do garimpo e do crime organizado e a epidemia de alcoolismo.
— São Gabriel tem um dos maiores índices de suicídio per capita do Brasil. É chocante. São crianças de 13, 14 anos que viviam em comunidades pequenas, onde todos eram iguais, e migram para a cidade com os pais e perdem a identidade. São discriminados, inferiorizados, chamados de “índios” — afirma. — É o mesmo desprezo que o Brasil tem por aquela região, que desde sempre só interessou para fornecer recursos.
Drauzio tem um imenso respeito pela sabedoria dos povos da Amazônia. “É transformador o contato com a diversidade cultural das etnias que habitam a Bacia do Rio Negro”, escreve o médico, que, mesmo sendo ateu desde menino, se impressionou com a presença do transcendental no cotidiano dos habitantes da região. No livro, ele homenageia o mateiro Luiz Coelho, “um verdadeiro cientista”, com quem aprendeu “uma dimensão da botânica que os bancos escolares não me ensinaram”.
— Nessas viagens todas, aprendi que a Amazônia é um organismo vivo que vem sendo modificado pelas populações que vivem lá há 12 mil anos. O arqueólogo Eduardo Neves me ensinou que a floresta é uma construção biossocial. Eu nunca tinha pensado nisso. Para você ver como minha visão era micha, ridícula — diz ele. — Desde a invasão portuguesa, as populações que vivem lá sobrevivem a ataques dos brancos. A gente não faz ideia de como a história deles é heroica.
Fonte: Globo.com